#847 É muito bom estar vivo


 

Diário de viagem, 27 de maio de 2025


Onde estávamos

Faz alguns dias que estamos viajando pelas belíssimas praias do litoral do Brasil. A mata atlântica repousa sobre morros densos, como uma moldura viva. Estar perto do mar me acalma.

Do lado de fora, como sempre, um milhão de coisas: trocas de casa, busca por lugares legais para se estar, trabalhar, escrever, criar...

Amanhece a quinta feira. Chegamos na cidade por um posto de gasolina na beira da estrada, e fomos até uma pequena estalagem há trinta minutos a pé do centro de Ubatuba. 

O sol forte, mesmo que entre nuvens, iluminando a orla e suas cabanas. Barcos perto da praia. Estávamos, de fato, em um lugar novo.


O mais difícil da vida em movimento

O mais difícil da vida em movimento, com certeza, é acalmar o coração. Numa curva do caminho, surgem problemas que desafiam a paciência e o espírito - uma internet que não funciona. Uma cozinha alagada pela chuva. 

Tirei umas horas para caminhar pela praia do Itaguá até o centro da cidadezinha. Sentei em uma mesa de bar, acendi um cigarro e fiquei pensando, pensando e pensando. 

Não funcionou, óbvio.

Porque não tem nada a ver com pensar. Tem a ver com agir. Tem a ver com postura. Aquela que tomamos quando a tempestade lá fora nos pega. Não dá pra controlar a chuva que cai, mas sempre tem como escolher dançar.

No caminho de volta, uma pracinha. Me penduro pelos braços numa barra de ferro e sinto escoar pelos meus dedos o peso do mundo, até o meu peito. 

Salto, com os dois pés na terra. 


Não tem caminho de volta. 

Mesmo que fosse um lugar.

Mesmo que fosse um momento.

Ou uma pessoa...

Mas pera aí. Só tem eu aqui. 

Desde o primeiro dia de vida. 

E o resto foram presentes que a vida foi me dando, para acompanhar a solitude que precisa fazer parte do ser humano - ainda que ele ame.


Chegamos em Itamambuca, uma prainha há quinze quilômetros dali, depois de um trajeto difícil. Fomos parar quarenta minutos de distância do local que deveríamos. Celular sem bateria, raiva no ar...

Resolvi tirar um segundo para sorrir e escolher não me importar com tudo aquilo que ainda precisava ser feito. Sentados numa padaria simpática, recobramos as forças e fomos adiante, até o momento de deitar na cama confortável da nova casa.

Um bebê chora a noite. Tem uma família hospedada aqui também. 

Sinto compaixão. Penso em como eu agiria. Penso em como meus pais agiram, quando era eu ali, abrindo o berreiro.


Saio para caminhar até a praia.

O dia foi bom, claro. Deu pra se organizar. Ainda tem uma pilha de roupas pra lavar no chuveiro, mas tá tudo certo.

Toco os pés na areia da praia escura e vazia. Atrás do morro, as luzes da cidade sugerem que algo ainda está por vir.

Lá em cima, bem no alto, o céu repleto de estrelas sorri pra mim. 

O mar em movimento. Palavras saem de mim, quase sem querer:

- É muito bom estar vivo.

Essa é a experiência que eu tenho. 

Eterna, única.  

Faço perguntas pro vazio, como se fosse vazio.

Mas ele estava era cheio de vida. E responde. 

- É aquilo que é preciso aprender.


E como se fosse uma cereja no topo de um bolo de aniversário, um sorriso. Bem ali, no topo da força.

Por mais estranho que pareça, o sentido da luta reside muito na esperança da celebração, após a vitória.

                                                                                                


        2025, Itamambuca, São Paulo 📍

Como sempre, com muito amor, 

Dé.


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